5º ano – menina do mar – restantes páginas (texto corrigido)

22 Jan

Cultura em Miúdos

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E assim o rapaz e a Menina do Mar passaram o resto da manhã a fazer planos

para a aventura do dia seguinte. Até que a maré subiu e o rapaz foi-se embora.

No outro dia o rapaz veio para as rochas com o balde. Vinha muito alegre,

entusiasmado com o seu projecto, cantando e dando saltos. Mas quando chegou

à poça de água encontrou a Menina do Mar com um ar muito desesperado e o

polvo, o caranguejo e o peixe todos três com cara de caso.

– Bom-dia – disse o rapaz. Trago aqui o balde. Vamos embora depressa.

– Eu não posso ir – disse a Menina do Mar. E desatou a chorar como uma fonte. Cultura em Miúdos

– Mas porquê? – perguntou o rapaz.

– Por causa dos búzios. Os búzios têm muito bom ouvido, ouvem tudo, são os

ouvidos do mar. E ouviram as nossas conversas e foram contá-las à Raia que

ficou furiosa e agora eu já não posso ir contigo.

– Mas a Raia não está aqui. Mete-te dentro do balde e vamos embora depressa.

– É impossível – disse a Menina do Mar. A Raia ordenou aos polvos que não me

deixassem passar. As rochas estão cheias de polvos escondidos que nós não

vemos, mas que nos vêem e espiam cada um dos nossos gestos. Tenho que te

dizer adeus para sempre. Amanhã já não volto aqui porque a Raia, para me

castigar de eu ter querido fugir, decidiu que esta noite ao nascer da Lua eu serei

levada pelos polvos, para uma praia distante, que eu não sei como se chama,

nem onde fica. E nunca mais nos poderemos encontrar.

Enquanto dizia isto o rapaz pousou na ar um copo cheio de vinho. Era um

daqueles copos muito pequenos que servem para beber licores. A Menina do

Mar segurou o copo com as duas mãos e olhou o vinho cheia de curiosidade,

respirando o seu perfume.

– É muito encarnado e muito perfumado – disse ela. – Conta-me o que é o vinho.

– Na terra — respondeu o rapaz – há uma planta que se chama videira. No

inverno parece morta e seca. Mas na primavera enche-se de folhas e no verão

enche-se de frutos que se chamam uvas e que crescem em cachos. E no outono

os homens colhem os cachos de uvas e põem-nos em grandes tanques de pedra

onde os pisam até que o seu sumo escorra. E a esse sumo dos frutos da videira

que chamamos o vinho. Esta é a história do vinho, mas o seu sabor não o sei

contar. Bebe se queres saber como é.

E a Menina bebeu o vinho, riu-se e disse:

– É bom e é alegre. Agora já sei o que é a terra. Agora já sei o que é o sabor da

primavera, do verão e do outono. Já sei o que é o sabor dos frutos. Já sei o que

é a frescura das árvores. Já sei como é o calor duma montanha ao sol. Leva-me a

ver a terra. Eu quero ir ver a terra. Há tantas coisas que eu não sei. O mar é uma

prisão transparente e gelada. No mar não há primavera nem outono. No mar o

tempo não morre. As anémonas estão sempre em flor e a espuma é sempre

branca. Leva-me a ver a terra.

– Tenho uma ideia – disse o rapaz. – Amanhã trago um balde e encho-o com água

do mar e algas. E tu pões-te dentro do balde para não secares e eu levo-te

comigo a ver a terra.

– Está bem – disse a Menina. – Amanhã vou contigo dentro do balde de água. E

vou ver a tua casa e vou ver o teu jardim e vou ver passar os comboios: e vou ver

a noite numa cidade cheia de luzes, de gente e de carros. E vou ver os animais da

terra, os cães, os cavalos, os gatos: e vou ver as montanhas, as florestas e todas

as coisas que me contaste.

– Vamos experimentar fugir – disse o rapaz. Eu com as minhas duas pernas corro

mais do que os polvos com os seus oito braços, que nem são braços nem são

pernas.

E, tendo dito isto, pôs a Menina do Mar dentro do balde e pôs-se a correr. Mas,

no mesmo instante, as rochas cobriram-se de polvos. Para qualquer lado que ele

olhasse só via polvos. Procurou uma aberta por onde passar mas não havia

nenhuma. Em sua roda os polvos tinham feito um círculo fechado. E ele estava

no meio do círculo e não podia fugir. Então tentou saltar por cima dos polvos,

mas logo dezenas de tentáculos lhe ataram as pernas.

– Larga-me, larga-me – dizia a Menina do Mar. Larga-me senão matam-te.

– Não, não te largo – respondeu o rapaz.

Mas já os polvos lhe envolviam a cintura e o peito, lhe prendiam os ombros, lhe

atavam os pulsos e ele caiu nas rochas sem poder fazer nenhum gesto. Mas a sua

mão ainda não tinha largado o balde. Até que um polvo se enrolou à roda do seu

pescoço e o foi apertando lentamente. Então o rapaz viu o céu ficar preto, deixou

de ouvir o barulho das ondas e esqueceu-se de tudo. Estava desmaiado. Acordou

com a água a bater-lhe na cara. A maré tinha subido e as ondas já quase cobriam

a rocha onde ele estava caído. Levantou-se e todo o seu corpo ainda lhe doía,

coberto de marcas deixadas pelas ventosas dos polvos. Foi para casa devagar.

Passaram dias e dias. O rapaz voltou muitas vezes às rochas mas nunca mais viu

a Menina nem os seus três amigos. Era como se tudo tivesse sido um sonho.

Até que chegou o inverno. O tempo estava frio, o mar cinzento e chovia quase

todos os dias. E numa manhã de nevoeiro o rapaz sentou-se na praia a pensar

na Menina do Mar.

E enquanto assim estava viu uma gaivota que vinha do mar alto com uma coisa

no bico. Era uma coisa brilhante que refletia luz e o rapaz pensou que devia ser

um peixe. Mas a gaivota chegou junto dele, deu urna volta no ar e deixou cair a

coisa na areia.

O rapaz apanhou-a e viu que era um frasco cheio duma água muito clara e

luminoso.

– Bom-dia, bom-dia – disse a gaivota.

– Bom-dia, bom-dia – respondeu o rapaz.

Donde é que vens e porque é que me dás este frasco?

– Venho da parte da Menina do Mar – disse a gaivota. Ela manda-te dizer que já

sabe o que é a saudade. E pediu-me para te perguntar se queres ir ter com ela ao

fundo do mar.

– Quero, quero – disse o rapaz. Mas como é que eu hei de ir ao fundo do mar sem

me afogar?

– O frasco que te dei tem dentro suco de anémonas e suco de plantas mágicas.

Se beberes agora este filtro passarás a ser como a Menina do Mar. Poderás viver

dentro da água como os peixes e fora da água como os homens.

– Vou beber já – disse o rapaz.

E bebeu o filtro.

Então viu tudo à sua roda tornar-se mais vivo e mais brilhante. Sentiu-se alegre,

feliz, contente como um peixe. Era como se alguma coisa nos seus movimentos

tivesse ficado mais livre, mais forte, mais fresca e mais leve.

– Ali no mar – disse a gaivota – está um golfinho à tua espera para te ensinar o

caminho.

O rapaz olhou e viu um grande golfinho preto e brilhante dando saltos atrás da

arrebentação das ondas. Então disse:

– Adeus, adeus, gaivota. Obrigado, obrigado.

E correu para as ondas e nadou até ao golfinho.

– Agarra-te à minha cauda – disse o golfinho.

E foram os dois pelo mar fora.

Nadaram muitos dias e muitas noites através de calmarias e tempestades.

Atravessaram o mar dos Sargaços e viram os peixes voadores. E viram as

grandes baleias que atiram repuxos de água para o céu e viram os grandes

vapores que deixam atrás de si colunas de fumo suspensas no ar. E viram os

icebergues majestosos e brancos na solidão do oceano. E nadaram ao lado dos

veleiros que corriam velozes esticados no vento. E os marinheiros gritavam de

espanto quando viam um rapaz agarrado à cauda dum golfinho. Mas eles

mergulhavam e desciam ao fundo do mar para não serem pescados.

Aí estavam os antigos navios naufragados com os seus cofres carregados de oiro

e os seus mastros quebrados cobertos de anémonas e conchas.

Depois de nadarem sessenta dias e sessenta noites chegaram a uma ilha rodeada

de corais. O golfinho deu a volta à ilha e por fim parou em frente duma gruta e

disse:

– É aqui: entra na gruta e encontrarás a Menina do Mar.

– Adeus, adeus, golfinho. Obrigado, obrigado.

A gruta era toda de coral e o seu chão era de areia branca e fina. Tinha em frente

um jardim de anémonas azuis.

O rapaz entrou na gruta e espreitou. A Menina, o polvo, o caranguejo e o peixe

estavam a brincar com conchinhas. Estavam quietos, tristes e calados. De vez

em quando a Menina suspirava.

– Estou aqui! Cheguei! sou eu! – gritou o rapaz.

Todos se voltaram para ele. Houve um momento de grande confusão. Todos se

abraçaram, todos riam, todos gritavam. A Menina do Mar dançava, batia palmas

e ria com gargalhadas claras como a água. O polvo fazia o pino. O caranguejo

dava cambalhotas e o peixe dava saltos mortais. Depois de todas estas

habilidades ficaram um pouco mais calmos.

Então a Menina do Mar sentou-se no ombro do rapaz e disse:

– Estou tão feliz, tão feliz, tão feliz! Pensei que nunca mais te ia ver. Sem ti o

mar, apesar de todas as suas anémonas, parecia triste e vazio. E eu passava os

dias inteiros a suspirar. E não sabia o que havia de fazer. Até que um dia o Rei

do Mar deu uma grande festa. Convidou muitas baleias, muitos tubarões e

muitos peixes importantes. E mandou-me ir ao palácio para eu dançar na festa.

No fim do banquete chegou a altura da minha dança e eu entrei na gruta onde o

Rei do Mar estava com os seus convidados, sentado no seu trono de nácar,

rodeado de cavalos-marinhos. Então os búzios começaram a cantar uma

cantiga antiquíssima que foi inventada no principio do Mundo. Mas eu estava

muito triste e por isso dancei muito mal.

– Porque é que estás a dançar tão mal? – perguntou o Rei do Mar.

– Porque estou cheia de saudades — respondi eu.

– Saudades? – disse o Rei do Mar. Que história é essa?

E perguntou ao polvo, ao caranguejo e ao peixe o que tinha acontecido. Eles

contaram-lhe tudo. Então o Rei do Mar teve pena da minha tristeza e teve pena

de ver uma bailarina que já não sabia dançar. E disse:

– Amanhã de manhã vem ao meu palácio.

No dia seguinte de manhã eu voltei ao palácio. E o Rei do Mar sentou-me no seu

ombro e subiu comigo à tona das águas. Chamou uma gaivota, deu-lhe o frasco

com o filtro das anémonas e mandou-a ir à tua procura. E foi assim que eu

consegui que tu voltasses.

– Agora nunca mais nos separamos – disse o rapaz.

– Agora vais ser forte como um polvo.

– Agora vais ser sábio como um caranguejo – disse o caranguejo.

– Agora vais ser feliz como um peixe – disse o peixe.

– Agora a tua terra é o Mar – disse a Menina do Mar.

E foram os cinco através de florestas, areais e grutas.

No dia seguinte houve outra festa no Palácio do Rei. A Menina do Mar dançou

toda a noite e as baleias, os tubarões as tartarugas e todos os peixes diziam:

– Nunca vimos dançar tão bem.

E o Rei do Mar estava sentado no seu trono de nácar, rodeado de cavalosmarinhos,

e o seu manto de púrpura nas águas.

 

 

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