Resumo de “A AIA” de Eça de Queirós

21 Jul

Um rei jovem e valente partira a  batalhar   por terras  distantes, deixando só  e triste  a  rainha e um  filho pequeno. Desafortunadamente, o  rei perdeu a vida numa das batalhas  e foi chorado pela sua  esposa. Sendo  herdeiro  natural do trono, o  bebé estava  sujeito aos ataques  de inimigos  dos   quais  e  destacava o seu tio, irmão bastardo  do rei morto que   vivia  num castelo sobre os montes, com uma horda de rebeldes. O pequeno príncipe era amamentado por uma aia,  mãe de  um  bebé   também pequeno. Alimentava  os dois  com igual carinho pois um era seu filho e outro viria a ser seu rei. A escrava mostrava uma lealdade sem limites.

Ora, como se esperava, o bastardo desceu da serra com a sua horda e começou uma matança sem tréguas. A defesa estava fragilizada pois a rainha  não  sabia  como fomentá-la, limitando-se a temer e  a  chorar a sua fraqueza  de  viúva   sobre  o  berço  de  seu  filho. Uma noite,  a aia pressentiu  uma movimentação  estranha,  verificando a presença de homens no palácio. Rapidamente  se apercebeu do que iria passar-se e trocou, sem hesitar, as crianças dos respetivos berços. Nesse instante,  um homem enorme entrou  na câmara, arrebatou do  berço de marfim o  pequeno corpo que ali descansava  e partiu  furiosamente.  A rainha, que  entretanto   invadira  a  câmara, parecia louca  ao verificar as roupas desmanchadas e o berço  vazio. A aia mostrou-lhe, então, o berço de verga e o jovem príncipe que ali dormia.

Entretanto, o   capitão  dos guardas  veio avisar  que  o bastardo   havia sido vencido, mas  infelizmente  o corpo  do  príncipe tinha também  perecido. A rainha mostrou, então, o bebé e, identificando a sua salvadora, abraçou-a e beijou-a, chamando-lhe irmã  do  seu  coração. Todos  a aclamaram, exigindo que fosse recompensada. A rainha  levou-a   ao tesouro real,  para  que  pudesse  escolher a joia que mais lhe agradasse. A ama, olhando o céu, onde  decerto estava o seu menino, pegou   num punhal e cravou-o no seu coração, dizendo que agora que tinha salvado o seu príncipe tinha de ir dar de mamar ao seu filho.

Estrutura da Ação

Introdução

(dois primeiros parágrafos)

    Apresentação  do rei e do seu reino.  Partida  do  rei, deixando sozinhos a rinha, o filho e o reino.
Desenvolvimento

(de “A rainha chorou magnificamente o rei …” até ” Era um punhal  de um  velho rei  (…)  e que valia uma província.”)

    Comportamento das personagens aquando da morte do rei: a aia troca as crianças  quando pressente o ataque ao palácio pelo ambicioso tio e a sua horda; morte do tio e do escravozinho; reação das personagens à morte do suposto principezinho.
Conclusão

( três últimos parágrafos)

    Por amor ao filho, a aia suicida-se.

Da  conclusão infere-se que se considerarmos  a  história da aia, estamos  perante uma narrativa fechada, pois apresenta um desenlace irreversível.

A   articulação  das  sequências  narrativas  (momentos  de   avanço)  faz-se  por encadeamento. Os momentos de pausa abrem e fecham a narrativa e interrompem, por vezes, a narração com descrições (espaço, objetos, personagens).

Símbolos

Ao longo da ação,  há inúmeras referências ao ouro, material precioso e incorruptível, símbolo de perfeição. Para além do seu valor material,  simboliza a salvação, a elevação de uma forma superior de vida, mais espiritual. O  príncipe, frágil e inocente, tem cabelos louros e dormia no seu berço com o seu guizo de ouro fechado na mão. Na câmara dos tesouros todos os objetos cintilavam e até o céu se tingia de ouro. E era  no céu, que se encontrava o escravo, salvo dos perigos e era junto dele que a aia desejou estar.

Por outro lado, a presença da escuridão, da noite ao longo da ação, acentua o carácter  trágico da mesma. Os cabelos negros do escravo, em contraste com os cabelos louros do príncipe são referências à morte do primeiro versus a salvação do segundo.

 

AS PERSONAGENS
Neste texto, ressalta uma ambivalência de temor que envolve as  personagens nobres, habitantes de um palácio.

Personagens Caracterização física Caracterização psicológica
Rei Moço, formoso Valente, alegre, rico, poderoso, sonhador, ambicioso.
Rainha Desventurosa, chorosa, solitária, triste, angustiada, grata, surpreendida.
Tio Face escura, homem enorme Mau, terrível, cruel, ambicioso, selvagem
Aia Bela, robusta, olhos brilhantes Leal, nobre, venerável, sofredora, dedicada, terna, perspicaz, decidida, corajosa
Príncipe Cabelo louro e fino, olhos reluzentes Frágil, inseguro
Escravo Cabelo negro e crespo, olhos reluzentes Simples, seguro e livre

 

Ao longo do  texto  está  presente   o processo de caracterização direta, visto  que   as informações são-nos  dadas  pelo  narrador. No   entanto, há também  informações que  são  deduzidas   a  partir do comportamento das  personagens  (caracterização  indireta).

Deste quadro  de personagens, destaca-se,    obviamente,  aquela  que  dá  nome  ao conto – a Aia, personagem  principal, tornando-se modelada, no  fim  do  conto, porque  adquire uma densidade psicológica significativa. Mulher de uma  dedicação desmesurada ao filho, ao  príncipe e   aos  reis prova,  com  o   gesto da troca das crianças, uma grandeza  de  alma  que  não  pode ser   compreendida   por nenhum  humano  e que, por consequência, não   tem nenhuma   recompensa ou pagamento material. A crença espiritual que alimenta o seu gesto  demonstra uma linearidade e uma simplicidade de   pensamento que  coloca  o  dever acima de tudo: o dever de escrava  e  o  dever  de mãe. O  desejo  da aia  de provar que a cobiça e a ambição podem estar arredadas de um coração leal,  fez  com que   ela escolhesse um punhal para pôr termo à sua vida. Trata-se  de   um objeto  pequeno,  certeiro que remete para  o  carácter   decidido  da   personagem e que era o maior tesouro  que aquela mulher ambicionava, pois, esse  objeto lhe abriria caminho para o encontro com o seu filho, para cumprir o seu  dever de  mãe, dando-lhe de mamar.

O rei, a rainha, o tio, o príncipe  e o escravo são personagens  secundárias e planas. Não são identificadas por um nome próprio uma  vez que remetem  para a intemporalidade da história. As crianças estão, no conto,  marcadas pela sua  posição social: uma  dorme em berço de  ouro entre   brocados,  a  outra,  num  berço  pobre e  de  verga. À hora da morte é  por essa  marca  que  o inimigo  vai identificar o  futuro rei. O  príncipe não intervém diretamente  na ação, mas é  o   centro das atenções de  todas  as personagens. A personagem escravo existe  para salvar a vida do príncipe.
– O ESPAÇO A ação é  localizada  num  reino grande e rico, e decorre num palácio, erguido num reino próspero « abundante em cidades e searas». Toda   ação  decorre nesse  espaço, sendo que alguns recantos do palácio são sobrevalorizados por oposição a  outros,  por  exemplo, a  câmara onde o príncipe e o filho da escrava dormiam e  a câmara dos tesouros.

No entanto, alguns espaços  exteriores adquirem alguma importância: o primeiro é o  espaço onde se efetiva  a  derrota do rei e consequente morte que vai deixar a rainha viúva,  o filho   órfão e o povo sem rei; o segundo acaba por ser um elemento caracterizador do   vilão  do  conto: «vivia  num castelo, à maneira de um lobo, que entre a  sua  alcateia, espera a presa». Através   desta  apresentação, o  leitor fica  na  expectativa  do   que irá acontecer, visto que  ela é indicadora de  confrontação e de tragédia. É também determinante no clima que se vive no  palácio, que denota temor e insegurança.
O espaço é descrito do  geral  para o particular, do  exterior para   o  interior.

Primeiramente, é  nos apresentado «um reino abundante em cidades e searas», onde se situa um  palácio, habitado por um príncipe frágil que é protegido no seu berço pela sua   ama. À medida que se desenrolam os   acontecimentos,  o espaço  vai-se  concentrando cada vez mais, acabando a Aia por se suicidar na câmara dos  tesouros.

No exterior,  no  alto, encontramos um «castelo sobre os montes», « o cimo das serras»,  povoado pelo tio bastardo e a   sua horda, que vigiam a presa – o príncipe que vivia no palácio. Cá em baixo, «na planície, às portas da cidade» existe um palácio, onde a população   e  o   príncipe  estão desprotegidos e são presa fácil. No interior da «casa real» há uma câmara com  um berço, um pátio, a galeria  de mármore, a câmara dos tesouros, onde estão a  rainha, a aia, o príncipe e o escravo.

Quanto  ao espaço  social,   é descrito o  ambiente da corte – palácio, rei, rainha, aias, guardas.
– O TEMPO
Não há referências a datas ou locais que permitam localizar a ação no tempo. Há  apenas algumas expressões referentes ao tempo: «lua cheia », «começava a minguar», «noite de Verão», «noite de silêncio», «luz da madrugada».

É à noite que acontecem os principais acontecimentos desta história – a morte do rei, o nascimento do príncipe e do escravo, o ataque ao palácio, a troca das crianças, As mortes do escravo, do tio e da sua horda. No entanto, a ação culmina com a  morte da aia, de madrugada.

O   núcleo central da ação centra-se  numa noite. A Condensação de um tempo da história  tão  longo, numa  narrativa   curta (conto) implica a utilização  sistemática  de sumários ou resumos  (processo pelo qual o tempo do discurso é menor do que o tempo da  história).

É possível  também identificar  no   texto um outro processo de redução do tempo da  história, que é  a   elipse (eliminação, do discurso,  de  períodos  mais  ou  menos longos da história). Na  parte  inicial  da  ação, «a   lua  cheia que   o vira  (o rei) marchar» começava a minguar, quando um dos seus cavaleiros aparece  trazendo  a notícia da sua morte.

Quanto à ordenação dos acontecimentos, predomina o  respeito pela  sequência cronológica.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: